
Pessoal, como o tema do post anterior rendeu muitos comentários divergentes, achei que valia a pena voltar ao assunto Taís Araújo resgatando alguns aspectos que vocês levantaram.
Concordo que independente da cor da pele (pois o crespo não é exclusividade dos negros) cada um tem o direito de usar o cabelo da maneira que quiser, seja liso, cacheado, com dreads, tranças ou apliques. O que não concordo é dizer que o cabelo liso é mais prático – quando você nasce com ele assim, sem dúvida. Mas para quem tem o fio quimicamente alisado, o trabalho para fazer a manutenção deste cabelo acaba equiparando o cuidado que você teria para mantê-lo ao natural.
Os cabelos crespos, mesmo que não possuam nenhuma química, como tinturas ou alisamentos, precisam naturalmente de mais hidratação, pois a oleosidade produzida pelas glândulas sebáceas encontra dificuldade para atingir todo o comprimento do cabelo, por conta do formato do fio, tornando-o mais ressecado. Quando o cabelo passa por procedimentos químicos essa necessidade de cuidado aumenta ainda mais, pois é impossível realizar um procedimento dessa natureza sem alterar a estrutura do fio.
É inegável dizer que existe uma pressão social e estética a favor dos fios retos, que nos faz desde cedo tentar cuidar do cabelo crespo da forma errada. Cortamos, lavamos, penteamos e secamos o cabelo crespo como se ele fosse liso, e é claro que ele não fica da maneira que gostaríamos. Não temos informação suficiente sobre como cuidar do nosso tipo de cabelo, ao contrário, somos bombardeadas com a ideia de que o liso dá menos trabalho e é mais bonito. Assim, compramos essa verdade e viramos escravas de uma rotina de cuidados e tratamentos que certamente são mais desgastantes para nós e para o fio do que tratá-los da maneira recomendada para o tipo dele.
É claro que isso não impede que homens e mulheres crespos façam seu alisamento químico, chapinha ou escova quando quiserem, só que esta escolha deveria ser tomada por um gosto pessoal, e não por uma pressão social que pede uma padronização que foge completamente às características dos brasileiros. Achar que liso é sinônimo de belo, faz com que o crespo fique sempre marcado como um cabelo “pior”. Repare que, ao saber de um evento importante, a maior parte das mulheres automaticamente se programa para fazer uma escova na data. É como se o cabelo crespo estivesse vetado para ocasiões marcantes, para não ser lembrado em fotos e filmagens.
Colocar uma protagonista de novela das 8 com cabelos cacheados, sejam eles naturais, aplique, babyliss ou peruca, cria um referencial de beleza importante em um país no qual o cabelo naturalmente liso é uma exceção. Crianças, adolescentes e adultos não encontram muitos exemplos de destaque com cabelos naturalmente cacheados ou crespos nos quais possam se inspirar ou se reconhecer. Basta contar por aí, nas capas de revista, nas novelas e programas de TV, quantas pessoas crespas estão em evidência. É por isso que o cabelo de Taís Araújo em “Viver a Vida” está rendendo tanto assunto.
É claro que os cuidados com a imagem da atriz durante a gravação da novela serão muito mais complexos e detalhistas do que o processo de arrumação que a própria atriz deve ter na sua vida pessoal, ou que nós, crespas, teríamos em casa. Temos que ser realistas: a imagem de Taís está sendo exibida em dos produtos de maior destaque da Globo, e há todo um padrão de qualidade estabelecido pela emissora por trás do que vai ao ar para o público. Isso não significa que é impossível ter um belo e saudável cabelo crespo sem toda a parafernália de cuidados que cerca uma atriz de novela. Basta encontrar os profissionais, produtos e hábitos corretos.
Taís está vivendo uma personagem, cujo visual não é escolha dela, mas de outros profissionais envolvidos na novela. Seja qual for a preferência particular da atriz em relação aos seus cabelos, também não é justo colocar em cima dela toda uma responsabilidade pela aceitação dos cachos e crespos pelo país afora. Se o trabalho que ela faz rende frutos positivos na auto-estima das pessoas, ótimo, mas ela não tem a obrigação de ser uma “porta-voz da luta pela naturalidade dos fios”. Assim como a primeira-dama dos EUA Michelle Obama não deve deixar de lado seus fios alisados apenas para satisfazer uma cobrança popular para que ela assuma a sua natureza crespa.
Acho que o mais importante nessa discussão toda é não se sentir obrigada a entrar num formato pré-estabelecido do que é belo, se ele não se encaixa com o que você acredita ser. Simples assim.